Enquanto treinador, os meus sentidos parecem estar permanentemente apurados, preparando-me para receber atletas provenientes de contextos diferentes.
O primeiro treino, a primeira competição: ninguém sabe verdadeiramente o que esperar. O coração acelera, surgem as dores de estômago, a boca fica seca, as mãos transpiram.
A eficácia de um programa nunca deve ser avaliada apenas pela sua duração ou pelo seu custo. Mede-se por tudo aquilo que o atleta atravessa ao longo do processo: o tempo investido, o stress, a ansiedade, a quantidade de detalhes a dominar, a capacidade de repetir cada detalhe da programação, a recuperação, bem como a capacidade de manter ou desenvolver o seu desempenho.
O atleta observa e analisa os seus tempos. Compara a sua técnica antes e depois, avalia a sua própria execução e procura compreender de onde vêm as suas melhorias, quando elas existem. Corre mais depressa porque ficou mais forte? Melhorou a coordenação? Aperfeiçoou a técnica, permitindo-lhe orientar a força de forma mais eficiente? Desenvolveu uma capacidade que antes não possuía?
Na realidade, qualquer combinação destes fatores pode melhorar o desempenho humano. No entanto, do ponto de vista do treinador, há um fator que se destaca dos restantes: a diferença entre a perceção que o atleta tem da sua força e a análise feita pelo treinador.
A perceção que o atleta tem da sua força nem sempre corresponde à força que é realmente capaz de demonstrar quando o movimento é analisado por um treinador.
Ao longo da análise de centenas de atletas, encontrei repetidamente os mesmos erros. Atletas capazes de deslocar cargas elevadas na leg press revelavam-se incapazes de manter uma posição de agachamento profundo com uma técnica consistente, transferindo o peso para a parte da frente dos pés. Outros pareciam incapazes de produzir uma flexão potente dos joelhos numa passada, acabando por dar pequenos passos desequilibrados.
A realidade era evidente: existe algo que acontece entre o momento em que o atleta acredita estar a desenvolver ou a produzir força e o momento em que o treinador a analisa.
A força parece ter evoluído, mas a técnica que permite expressá-la não está consolidada.
Porque são incapazes de correr depressa ou de realizar um agachamento profundo com uma técnica consistente, apesar de acreditarem possuir o nível de força necessário? Porque são incapazes de reproduzir, num movimento livre, o nível de desempenho que julgavam ter desenvolvido numa sala de musculação com máquinas convencionais?
Como explicar esta diferença na perceção do desempenho, seja ela positiva ou negativa?
Ao responder a esta questão, poderemos pôr em evidência verdades fundamentais sobre a forma como o ser humano aprende a mover-se e, consequentemente, sobre a forma como o devemos ensinar.